O domingo não termina quando acaba

A ansiedade do começo da semana raramente nasce na segunda-feira, ela começa na forma como o domingo termina.

O domingo costuma acabar antes de acabar. Não é quando a luz diminui nem quando o relógio avança para a noite. Ele termina naquele instante em que a cabeça deixa o presente e começa a ensaiar a semana seguinte, mesmo que o corpo ainda esteja sentado no sofá. A lista mental de tarefas surge sem convite, o descanso começa a parecer insuficiente e a sensação é de que algo ficou pendente, ainda que o dia tenha sido livre.

Há quem tente resolver essa inquietação produzindo. Organiza arquivos, responde mensagens, adianta compromissos, como se antecipar fosse uma forma de defesa. Outros fazem o oposto, empurram tudo para longe, evitam qualquer sinal da segunda-feira e apostam que ignorar a semana vai adiá-la. Nenhuma dessas estratégias costuma funcionar por muito tempo, porque o desconforto não está exatamente no que se faz, mas no que não se encerra.

O estresse do começo da semana raramente nasce na segunda-feira. Ele se forma antes, no acúmulo de estímulos, na dificuldade de desacelerar, na sensação persistente de que tudo continua aberto. O corpo entende esse estado como alerta contínuo, e o descanso perde profundidade. Não é falta de tempo livre, é falta de fechamento. O domingo passa, mas não se conclui.

Talvez por isso pequenos gestos façam diferença. Não os grandes planos, nem as mudanças radicais, mas ajustes discretos. Diminuir o ritmo no fim do dia, fechar abas, evitar mais uma notícia ou mais uma rolagem automática. Organizar a semana sem tentar controlá-la por inteiro, anotando o essencial e aceitando que o restante será resolvido quando chegar. O cérebro lida melhor com limites claros do que com excesso de possibilidades.

Criar um ritual simples de encerramento ajuda mais do que parece. Separar a roupa do dia seguinte, arrumar a bolsa, sentar em silêncio por alguns minutos ou apenas ir para a cama sem estímulos adicionais. Não é sobre começar a semana com entusiasmo, nem com energia extra. É sobre começar menos desgastado. Talvez o problema nunca tenha sido a segunda-feira, mas o modo como o domingo termina.

Artigos relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *